Kenosis no Anthropos
Ele queria acabar com as estruturas de poder injustas do
Império Romano, fazendo do primeiro o último e do último o primeiro, mas acima
de tudo queria que a humanidade percebesse que o primeiro é o último e o último
o primeiro.
Cristo quis que percebêssemos que cada um de nós não tem o
direito de se colocar acima ou abaixo do outro.
Cristo queria libertar-nos da ilusão de que os símbolos
externos de poder, riqueza e autoridade, pudessem de alguma forma nos aproximar
do poder supremo do amor que existe dentro de todos nós – de forma igual.
Cristo iluminou-nos o caminho ao ensinar-nos que todos nós existimos
igualmente no amor.
É muito importante que nos lembremos que Cristo não era
cristão. O cristianismo surgiu centenas de anos depois de Cristo. Mais do que
formar uma religião organizada, Cristo, na sua breve passagem por este plano
terreno, inspirou uma forma de prática espiritual chamada kenosis, que
em grego significa “amor abnegado”.
Aquele Cristo jamais aceitaria todas as atrocidades que foram feitas ao longo dos séculos e que ainda se fazem, em seu nome.
Aquele Jesus Cristo, não os outros criados pela conveniência e imaginação de muitos, foi o homem que nunca foi cristão, mas que propôs uma humanidade nova, simbolizando o céu e a terra, pela sua natureza dual, divina e humana.
"Eu Sou o Caminho, a Verdade e Vida"
Muitas igrejas e catedrais foram criadas em seu nome, mas nenhuma dela honra o seu legado, a sua palavra: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei".
Cada um de nós é a catedral...é a igreja onde ele habita...se o procurares dentro de ti, encontrá-lo-ás!
Esta prática de amor abnegado é a razão pela qual a misericórdia
é tão curadora – porque o perdão muda tudo. Quando amamos alguém deixando de
lado as nossas ideias egóicas sobre essa pessoa, nós libertamo-nos e libertamo-la a ela.
Ressurreição ou renascimento, aqui nesta prática, é
perpétuo. Não está reservado para o momento da nossa morte. É praticado agora, neste corpo. No meu entender a kenosis está no centro da cura. É por isso que a
misericórdia significou tanto para Cristo. Não a religião, mas sim a misericórdia.
No evangelho de Maria Madalena, é relatado que Pedro, um dos discípulos de
Cristo, diz-lhe: “Tem-nos explicado todos os tópicos; diga-nos outra coisa.
Qual é o pecado do mundo?” O Salvador respondeu: “Não existe isso, do “pecado”.
(Maria 3:1-3)
Cristo disse-lhe que nós não somos inatamente pecadores. O
pecado não existe como uma verdade suprema. Pecado é quando confundimos nosso
verdadeiro Eu com o ego. Quando somos incapazes de sentir a presença da alma,
no meio de um dos poderes do ego e agimos a partir desse estado de
esquecimento.
O evangelho de Maria Madalena relata que Cristo era Anthropos,
o “verdadeiro ser humano”. E é isso que devemos nos tornar também, revelou
Cristo a Maria Madalena. O verdadeiro ser humano uniu o ego ao verdadeiro Eu, a
Alma, para que, mesmo no meio das tempestades que se abatem na nossa
vida, tenhamos sempre a capacidade de voltar ao amor sem limites que também
somos.
E como é que fazemos isso? Temos de ter misericórdia de nós
mesmos e uns dos outros, deixando o amor chegar onde nunca esteve antes.
O objetivo dessa prática espiritual discretamente poderosa é
ser capaz de reconhecer quando estamos num lugar de julgamento a nós mesmos ou às
outra pessoas, para ver também que não somos apenas esse ego ferido, sozinho.
Não somos apenas esse pequeno eu que está preso a tanta dor pessoal. Também
somos a Alma do Amor pronta a expandir-se para manter, curar e exercer
misericórdia.
O julgamento em todas as suas formas é a antítese de Cristo.
Deus é Amor.
Se dentro de nós o nosso amor não alcança determinadas
pessoas, então misericórdia, kenosis, amor abnegado é o que precisamos
praticar.
O que assemelha um Cristão a Cristo, não são um conjunto de
ideias dogmáticas, ou de qualquer outra coisa encontrada nas escrituras
cristãs, mas sim a presença da misericórdia que opera em nossas vidas de
maneira real e determinada.
Porque Cristo não era cristão. Cristo foi a personificação de um amor que nunca acaba. E ser semelhante a Cristo significa fazer o trabalho, diario e não apenas aos domingos, para continuar deixar o amor chegar onde nunca esteve antes.

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